A revolucionária e inspiradora experiência da rádio Camponesa FM, localizada no assentamento Palmares, em Crateús-CE, será tema de documentário produzido pela Articulação do Semiárido Brasileiro (ASA). Nos dias 14 e 15 de julho a Cáritas Diocesana de Crateús, enquanto membro do Fórum Cearense pela Vida no Semiárido, ao lado de Daniel Lamir, comunicador popular da ASA, acompanharam os trabalhos da produtora Cereja ao registrar saberes, sonhos e conquistas de um coletivo que fez opção consequente por ter uma rádio livre, e assim ser um oásis de liberdade em meio à opressão da concentração midiática no Brasil.

“Nós fizemos opção política por não ter outorga, porque esse tipo de concessão que a lei determina para rádios comunitárias não nos interessa. Como é que no meio do mato a gente vai poder ter só um quilômetro de raio de alcance?”, questiona Francisquinha Rodrigues, apresentadora do “Show do Brega”. Ela será uma das personagens do vídeo. Militante do MST, uma das que ocuparam as terras que mais tarde viriam a ser área de assentamento, além de ter sido líder sindical e mãe de quatro filhos, ela contou como é nesta fase da vida assumir mais um desafio, o de ocupar o latifúndio do ar.

Momento da entrevista com Francisquinha

Venceslau Lopes, apresentador de programas como “Camponesa Informa”, explicou também que a rádio envolve crianças, adolescentes, adultos e pessoas idosas; igreja católica, mas também igreja evangélica, e “dá ao agricultor e à agricultora a oportunidade de não só ser receptor de notícias, mas também de ser produtor de conteúdo. A rádio dá esse espaço pra gente poder falar o que pensa, e é isso que a grande mídia e as elites temem, que as camadas populares pensem e falem por si próprias”, argumentou Venceslau Lopes. Segundo ele, a rádio que hoje tem quatro anos de existência já é patrimônio das comunidades ao entorno da rádio, que não conseguem mais imaginar suas vidas sem a Camponesa.

Assim como ele, Raimundo Bombom, apresentador de programas como “Viva Sertão”, diz que encontrou um novo sentido pra vida através da experiência como comunicador popular. “Eu achava que não daria conta por não saber ler nem escrever. Mas eu tive ótimo retorno do público e hoje estou estudando porque quero poder fazer o programa ainda melhor sem depender de ninguém”, revela. Apesar da limitação que o sistema o impôs, Raimundo precisa decorar os anúncios para falar no ar, pois, dadas as grandes audiências dos programas que ele apresenta, alguns apoiadores culturais colocam como condição para fechamento do acordo o anúncio ser feito na voz de Raimundo.

Vencerlau, Calisto e Guadameire no programa “Parada Esportiva”

“Esta rádio foi escolhida entre centenas de experiências de comunicação popular no Semiárido e eu pude comprovar que os comentários positivos sobre vocês não são exagerados. Eu como apaixonado por rádios comunitárias saio daqui bastante motivado após ver o exemplo que vocês dão”, comentou Daniel Lamir. Segundo ele, a coletividade, o envolvimento de várias faixas etárias e o caráter de desobediência civil que a Camponesa tem são exemplos que precisam mesmo ganhar visibilidade, para servir de inspiração para vários assentamentos e comunidades que não possuem um espaço “no ar” para travar a batalha das ideias e oferecer um contraponto ao que as elites dizem através da grande mídia.

O documentário deve ficar pronto em 45 ou 60 dias.

Por Eraldo Paulino, comunicador popular da Càritas Diocesana de Crateús.